Cena montada na tarde de uma segunda-feira. Clarissa Récio entrou na sala de sua casa, cenário do seu ensaio fotográfico, e o espaço pareceu se reconfigurar: uma presença que não pede licença, mas que se impõe pela calma. Cada movimento era calculado, mas fluído e ali cada detalhe, observado. 

"Luz, câmera, ação" e a equipe YOU estava pronta, mas o verdadeiro desafio ia além das lentes. Como capturar, em alguns flashes, as múltiplas dimensões de uma mulher que navega, com aparente leveza, entre o universo corporativo, a expressão artística e o sagrado terreno familiar? Como traduzir em imagem um equilíbrio tão poderoso e uma sensibilidade tão estruturada?

O que se seguiu foi mais que uma sessão de fotos ou uma entrevista. Foi um editorial de uma vida real. Clarissa tem poder, elegância e força, é uma persona com atuação orquestrada e determinada. Pode parecer cenário de cinema, mas aquela era apenas uma segunda-feira na vida de Clarissa, onde ela seria produzida para a capa da 44ª edição da Revista YOU e por aqui precisamos correr para acompanhar o ritmo natural de nossa entrevistada.

Hoje, apresentamos Clarissa Récio em profundidade. Você pode conhecê-la pelas definições já apresentadas: empresária, advogada, influenciadora gastronômica, escritora. Mas há uma perspectiva que só se revela quando observamos os detalhes da vida de Clarissa, o fazer. Sua rotina é uma demonstração prática de uma liderança feminina que transforma espaços e momentos.

Como contraponto desse complexo universo, existe um quê de harmonia e equilíbrio, onde reside o segredo de toda a sua serenidade e potência: sua família. É desse porto seguro que Clarissa extrai o sentido, o propósito e o entusiasmo de sua trajetória.

Ela divide seu tempo e energia entre a direção do grupo empresarial da família, um legado que exige visão estratégica e firmeza, e a construção da marca Clarissa Gastronomia, seu projeto pessoal que nasceu da paixão e se transformou em um negócio de impacto nacional. 

A empresária construiu sua própria história com visão, estratégia e posicionamento e hoje comanda um império. Acompanhe agora a entrevista completa de Clarissa Récio.

Quem é a Clarissa quando a cozinha está silenciosa, quando ninguém está esperando nada de você?

Eu volto a ser a Clarissa essencial, aquela menina que cresceu nas reuniões de família, na mesa barulhenta, onde tudo se movia a afeto. Um abraço apertado, uma brincadeira, boas risadas, conversas cruzadas e sempre uma comida gostosa no centro de tudo.

Nesse silêncio, reencontro essa versão de mim que carrega lembranças, sabores e a simplicidade que me formou. É o momento em que cozinho sem pressa, apenas pelo prazer de sentir os ingredientes e de me conectar com o que realmente importa na vida, as conexões que criamos e memórias que construímos. 

Ali nasce a minha melhor versão: simples, sensível e inteira. Nos instantes de quietude, eu não sou empresária, influenciadora ou autora, sou só Clarissa, mulher, mãe, filha, alguém que encontra na gastronomia um lugar de paz e reencontro. É desse silêncio que vem minha força e o propósito que carrego na alma: cozinhar para conectar pessoas.

De que forma suas raízes influenciam seu estilo gastronômico e a experiência que você entrega como marca?

Minhas raízes são o alicerce de tudo o que faço. Sou paraense de nascimento, amapaense de coração, e carrego comigo a força da Amazônia, seus ingredientes, suas histórias, sua diversidade e, principalmente, a forma generosa com que a região se relaciona com a comida.

Foi na mesa da minha família que aprendi que cozinhar é um gesto de amor, de cuidado e de presença. Essa herança afetiva moldou meu estilo gastronômico: receitas que abraçam, que contam histórias, que valorizam a mandioca, o tucupi, o jambu, os peixes da nossa região e todos os sabores que traduzem pertencimento.

Como marca, eu entrego exatamente isso: gastronomia com alma. Não é só a técnica, não é apenas o prato final, é a experiência, o ritual, a memória que cada receita desperta. É a mesa posta com carinho, é o toque afetivo, é a verdade da minha origem presente em cada detalhe.

“Elegância” é uma palavra forte no seu trabalho e vida pessoal. O que significa elegância no prato, e no seu cotidiano?

Para mim, elegância nunca foi sobre exagero, é sobre intenção. No prato, elegância é o equilíbrio entre simplicidade e cuidado. É usar bons ingredientes, montar com delicadeza e permitir que o sabor fale mais alto que qualquer efeito visual. Elegância é quando a comida emociona antes mesmo da primeira garfada, porque carrega verdade, leveza e propósito.

No meu cotidiano, elegância é um modo de estar no mundo. É a gentileza nos gestos, a calma no olhar, a escolha pelo que faz sentido. É cuidar da casa, da mesa, da família, dos rituais do dia a dia com carinho. É transformar o simples em especial, seja um café da manhã, um jantar de domingo ou um almoço apressado. No fundo, elegância é sobre presença.

Depois do lançamento do seu livro Clarissa Gastronomia, o que mudou em você como criadora e como empresária?

O lançamento do meu livro Clarissa Gastronomia marcou um antes e depois na minha trajetória. Como criadora, eu me senti ainda mais responsável e inspirada. Reunir tantas receitas carregadas de memória, afeto e identidade amazônica em um único volume me fez revisitar minha história e entender o impacto que meu trabalho tem na vida das pessoas. Passei a criar com ainda mais intenção, mais profundidade e mais verdade.

Como empresária, o livro me abriu novas portas e ampliou minha visão de negócio. Eu compreendi que a Clarissa Gastronomia é uma marca que vai muito além das redes sociais: ela se materializa em produtos, eventos, oficinas, parcerias e experiências que unem pessoas ao redor da mesa. O livro me deu musculatura, profissionalismo e clareza estratégica para crescer.

Hoje você lidera um negócio gastronômico que está ganhando destaque. Você se enxerga mais como artista da cozinha ou como gestora estratégica? 

Eu me enxergo nas duas dimensões, porque uma alimenta a outra. A artista da cozinha é a Clarissa que cria, que sente, que transforma lembranças em receitas e ingredientes em histórias. É ela que imprime emoção nos pratos, que busca beleza, leveza e afeto em cada detalhe. Sem essa parte de mim, nada do que faço teria alma.

Mas, ao mesmo tempo, eu sou profundamente gestora estratégica. Lidero um negócio que cresce rápido, que envolve equipe, parceiros, logística, criação de produtos, eventos, planejamento e decisões diárias que exigem visão, responsabilidade e clareza. A gastronomia é minha linguagem, mas a gestão é o que torna possível transformar essa linguagem em marca, em impacto e em expansão.

Hoje, eu entendo que não preciso escolher. Sou artista quando crio e gestora quando executo, e é justamente essa combinação que me permite entregar experiências completas: afetuosas, elegantes, profissionais e consistentes. É nesse equilíbrio que a Clarissa Gastronomia se fortalece, cresce e se diferencia.

Qual é sua visão para a gastronomia no Norte nos próximos anos?

Acredito que estamos vivendo um momento muito especial para a gastronomia do Norte.

Por muitos anos, nossos ingredientes, técnicas e tradições ficaram restritos às fronteiras da região. Mas hoje o Brasil, e o mundo, olha para a Amazônia com admiração, curiosidade e respeito. E isso é só o começo.

Minha visão para os próximos anos é de protagonismo. Vejo nossos produtos ganhando mais espaço em menus brasileiros e internacionais; vejo chefs, pesquisadores e empreendedores valorizando ainda mais a mandioca, o tucupi, o jambu, os peixes amazônicos, as castanhas e tantas outras riquezas que só o Norte possui. Enxergo uma gastronomia que combina tradição e inovação, que respeita a floresta e que reconhece o papel dos produtores locais como verdadeiros guardiões desse patrimônio.

Quero fazer parte dessa construção, mostrando, através do meu trabalho, que a gastronomia do Norte é plural, elegante, afetiva e autêntica. Acredito que o futuro da culinária brasileira passa pela Amazônia. E quanto mais valorizarmos nossas raízes, mais fortes seremos como região, como cultura e como marca gastronômica no mundo.

Se tivesse que escolher um prato que representa o seu poder, qual seria, e por quê?

Certamente o meu poder é o frango guisado da minha avó. Esse prato carrega a memória mais profunda que tenho da cozinha como lugar de afeto, cuidado e força feminina. Era ela quem preparava aquele frango suculento, cheio de aroma, com paciência e amor, e cada vez que eu reproduzo essa receita, sinto como se herdasse um pedaço da sua garra, da sua doçura e do seu jeito simples de transformar tudo ao redor.

O frango guisado da minha avó é comida que abraça, que sustenta e que aproxima. Esse prato traduz o meu poder porque ele me lembra de onde eu vim, me devolve minha essência e reacende a certeza de que a verdadeira força está nos gestos simples, feitos com alma e com amor.

Ser uma mulher forte em um setor competitivo exige coragem. Qual tem sido seu maior desafio como mulher e empresária, ainda estar na direção do Grupo empresarial da família, ou cuidar dedicadamente da sua nova jornada com a gastronomia?

Ser uma mulher forte em um setor competitivo exige coragem todos os dias, e eu aprendi a construí-la caminhando em duas jornadas que amo profundamente. Estar na direção do grupo empresarial da minha família sempre foi um grande desafio, porque envolve responsabilidade, tomada de decisão, gestão de pessoas e a continuidade de um legado. É uma função que exige firmeza, visão estratégica e presença constante.

Ao mesmo tempo, cuidar da minha nova jornada com a gastronomia é um desafio diferente, mas igualmente intenso. É empreender com a alma exposta, criar algo do zero, transformar uma paixão em negócio, desenvolver produtos, conduzir parcerias, produzir conteúdo e manter a essência afetiva que meu público reconhece e valoriza. É gerir uma marca que cresce rápido e que exige criatividade, sensibilidade e profissionalismo ao mesmo tempo.

Meu maior desafio tem sido equilibrar esses dois mundos sem perder a minha verdade. Ser fiel à empresária que lidera com responsabilidade e, ao mesmo tempo, à criadora que cozinha com afeto e propósito. Mas foi justamente desse equilíbrio que nasceu a minha força: a Clarissa que conduz uma empresa com firmeza é a mesma que entrega elegância e afeto na gastronomia.

Entendi que não preciso escolher um caminho, posso construir os dois com coragem, disciplina e amor. E é isso que me move todos os dias.

O livro foi um marco na sua carreira com a gastronomia. O que ele revelou sobre você, e o que ele projeta para o futuro da sua marca?

O livro foi um divisor de águas na minha carreira. Ele revelou muito sobre quem eu sou, não apenas como cozinheira, mas como mulher, mãe, empresária e contadora de histórias. Ao reunir minhas receitas mais afetivas, percebi a força que a gastronomia sempre teve na minha trajetória e o quanto meu trabalho toca as pessoas de forma real. O livro me mostrou que a minha marca não nasceu de estratégia, e sim de verdade: nasceu das mesas da minha família, das minhas raízes amazônicas, das memórias que carrego e da vontade genuína de conectar pessoas através da comida.

Ele também reafirmou minha capacidade de liderança e execução. Entendi que sou capaz de transformar um sonho em um projeto concreto, de construir uma obra com começo, meio e fim, de assumir meu lugar como criadora e como empresária da própria marca.

Para o futuro, o livro projeta expansão. Ele abriu portas que eu nem imaginava, desde parcerias nacionais até a criação de novos produtos, negócios, workshops, cursos, eventos e experiências que vão além das redes sociais. Mostrou que a Clarissa Gastronomia tem fôlego, tem propósito e tem um público que acredita no que eu construo.

O que você ainda quer construir como pessoa?

Como pessoa, ainda quero construir mais presença. Quero estar inteira nos momentos simples, nas conversas com meus filhos, nos encontros com meus pais, nos silêncios que às vezes faltam na rotina. Quero aprender a desacelerar sem culpa e a celebrar mais as pequenas vitórias do dia a dia.

Quero construir mais equilíbrio, entre o trabalho e a vida, entre a força que entrego ao mundo e a delicadeza que cultivo em casa. Quero continuar sendo uma mulher que inspira, mas também uma mulher que se permite ser cuidada, que se acolhe, que se escuta.

Ainda tenho muitos sonhos, mas todos começam do mesmo lugar: ser uma pessoa melhor, mais presente, mais leve e mais conectada com o que realmente importa.

O que o público não vê, mas te move todos os dias a sustentar esse nível de excelência?

A disciplina silenciosa que existe por trás de tudo o que eu entrego. É o cuidado em cada detalhe, desde a escolha do ingrediente até a luz perfeita do vídeo. É o estudo constante, a busca por referências, o planejamento de cada projeto, a revisão minuciosa de cada receita, cada texto, cada parceria.

Eles não veem as madrugadas em que estou organizando ideias, os testes que dão errado antes de dar certo, as inseguranças que eu transformo em coragem. Não veem o peso da responsabilidade de liderar duas frentes, o grupo empresarial da minha família e a marca Clarissa Gastronomia, e ainda assim manter a beleza, a leveza e a afetividade que me definem.

O que me move é a vontade genuína de entregar o meu melhor. É a certeza de que cada conteúdo, cada receita, cada evento e cada página do meu livro precisam carregar verdade. É o amor pela minha família e pelas minhas raízes. É saber que, de alguma forma, o meu trabalho toca pessoas, inspira, acolhe, desperta memórias.

Sustento esse nível de excelência porque não faço nada pela metade. Faço com alma, com propósito e com a certeza de que cozinhar, e comunicar, é a minha forma de servir ao mundo.

Como a culinária pode contar histórias que encantam, e qual é a sua, a da Clarissa?

A culinária tem um poder raro: ela conta histórias sem precisar de palavras. Cada receita carrega uma memória, um lugar, uma pessoa; carrega uma época da vida e um sentimento que volta à mesa sempre que o aroma se espalha pela casa. A comida tem essa magia de encantar porque ela fala diretamente com o afeto. Um bolo pode trazer de volta a infância. Um caldo pode lembrar um abraço. Um prato da nossa região pode revelar quem somos, de onde viemos e o que valorizamos.

A minha história, a da Clarissa, é construída justamente a partir disso. Sou filha da Amazônia, criada entre mesas barulhentas, panelas fumegantes e mulheres fortes que cozinhavam para unir, celebrar e cuidar. Minha gastronomia nasce da emoção dessas lembranças: da minha avó preparando o frango guisado que até hoje aquece minhas memórias, das festas de família onde tudo girava em torno de afeto e comida boa.

Quando cozinho hoje, eu não preparo apenas um prato. Eu revivo quem eu fui, honro quem me formou e compartilho com o meu público a delicadeza dessa história. 

A história da Clarissa é essa: uma mulher que acredita que cozinhar é um gesto de amor, que transforma memórias em receitas e receitas em encontros. Uma mulher que entende que as mãos cozinham, mas é a alma que tempera.