Existe uma distância de milhares de quilômetros entre Macapá e as pistas de música alternativa da Europa. Para DJ Braga, porém, essa distância nunca significou ruptura. Aos poucos, a música se tornou justamente a ponte entre esses dois mundos.
Criado em solo Tucuju até os 15 anos, Braga cresceu cercado pela identidade cultural do Amapá antes de seguir novos caminhos. Hoje, vivendo em Portugal, o artista vem conquistando espaço na cena europeia com um trabalho que transita pelo funk eletrônico, pelas MTGs e por experimentações que colocam sonoridades brasileiras em diálogo com a música eletrônica internacional. Porém, há algo particularmente simbólico nessa sua trajetória. Em um mercado musical no qual muitos artistas brasileiros buscam primeiro o eixo Rio-São Paulo para construir reconhecimento, Braga encontrou outro caminho. Saiu cedo do Norte do Brasil, desenvolveu sua linguagem artística e, por meio da internet e da própria música, atravessou fronteiras. Braga não chegou à Europa tentando apagar de onde veio. Ao contrário: sua história ganhou força justamente quando diferentes partes de sua identidade passaram a coexistir na música.
Para a Revista YOU, em Macapá, a conversa aconteceu de forma online, enquanto o artista estava em Portugal. De um lado da tela, a cidade onde sua história começou. Do outro, o país que hoje serve como uma das bases para sua expansão internacional. O resultado foi uma conversa sobre música, identidade, família, saudade, internet e sobre o que significa carregar um pedaço do Norte Brasileiro para as pistas do outro lado do Atlântico.
O que te influenciou a começar a produzir funk e MTG? Existe alguma inspiração ligada ao lugar onde você morava ou à sua vivência no Norte?
Bem, é funk… e eu misturo tipo, com submundo, que é um estilo mais de São Paulo, e eu misturo muito com o eletrônico, que é o Hard Techno, que é algo que eu trouxe a identidade aqui da Europa. E o Psytrance, que é algo que eu comecei a ouvir aí em Macapá, porque eu acompanhava muito o cenário do Psytrance aí em Macapá, o Lipe Du e afins, e uma outra galera. Só que os meus pais nunca me deixaram ir para essas festas, porque eu era muito novo quando morava aí. Então eu comecei a produzir Psytrance dentro de casa, quando eu tinha, sei lá, 13 anos, por aí.
Muitos artistas precisam se mudar para o Sudeste para buscar relevância. No seu caso, você acabou despontando para a Europa. Ter vivido tantos anos no Norte te deu uma perspectiva diferente para criar seus remixes e faixas?
Com certeza! O fato de ter morado em Macapá e ter vivido uma realidade de música brasileira, ou seja, no Brasil a gente tem uma quantidade de música diferente. A gente tem do MPB ao Rock Doido, ao forró, e tudo isso. Então desde pequeno eu sempre ouvi muita música, eu sempre curti desde Dj Lorran à Jorge Ben Jor, e eu hoje enxergo que isso foi uma mais valia na minha produção musical. Porque o meu ouvido é muito mais treinado, a minha influência é muito mais ampla, e eu sempre tive uma tendência de gostar mais de BPMs mais altos, e hoje eu tento misturar muito hard e funk. Eu gosto muito do trabalho que o DJ Argel Garcia, que é um DJ que até já tocou aí em Macapá. Ele mistura muito o Rock Doido com o submundo, com o funk, e eu gosto muito disso, e eu tenho tocado alguns sons nesse estilo aqui.
Como é a sua rotina de produção? A internet foi a principal ponte para fazer a música que você desenvolve ecoar pelo Brasil e, eventualmente, pelo mundo?
A minha rotina de produção é um pouco diferente. Acho que existem produtores que são mais técnicos e tentam ir mais a fundo da técnica. Eu gosto muito da arte de samplear, ou seja, pegar coisas prontas e transformá-las em coisas únicas, ou seja, sons. Eu uso muitos sons tribais, sons indígenas, sons de músicas conhecidas e eu transformo elas e vou aplicando na minha música. E com certeza a internet e principalmente a rede social, o TikTok, foi o que abriu as portas para mim. Sem isso eu não teria chegado onde cheguei, porque através dele eu consegui mostrar a minha música e trabalhar o meu nome como DJ e produtor, aqui em Portugal, e consequentemente no Brasil e no mundo.
A sua música carrega a ideia de levar a bagagem do Brasil para as pistas europeias? Quando você subiu ao palco na Europa, sentiu que estava carregando um pedaço dessa vivência cultural com você?
Sem essa vivência que eu tive em Macapá e desde o começo ter experienciado esses sons diferentes, até porque os sons que se escutam no Norte são bem diferentes do que se escutam, aqui em Portugal, com certeza melhorou a minha produção. E me deu uma vantagem maior do que qualquer outro produtor que não viveu essa experiência. Até tem alguns, como o DJ Pablu, um grande amigo meu que está em ascensão gigantesca aqui em Portugal, e ele é do Pará. E colocando da minha perspectiva e dele, como somos dois DJs grandes aqui em Portugal, a influência do Norte e da musicalidade brasileira, principalmente do Norte, essa influência ajudou a gente.
Como foi ver os europeus reagindo a vertentes periféricas e eletrônicas brasileiras? Eles conseguem captar a malandragem das transições das suas MTGs da mesma forma que o público brasileiro?
Bem, isso é um pouco polêmico, mas foi difícil. Não foi fácil introduzir o funk, não esse funk só TikTok, só aqueles que mais bombaram. Aqui não foi algo fácil, foi aos pouquinhos e hoje eu toco muito o que eu gosto de tocar e funk que eu gosto de tocar. E às vezes funk que nunca ninguém ouviu aqui, por exemplo, e não foi fácil, porque eles não têm a malandragem do brasileiro, eles não têm aquele sentimento do brasileiro, eles não têm essa... não sei explicar o Brasil. Eles não têm o Brasil dentro deles, então não foi algo fácil, mas aos pouquinhos eles foram entendendo, foram consumindo e hoje eu tenho um público grande que gosta desse tipo de som.
Qual foi o maior choque ou aprendizado musical nessa transição entre tocar para o público que você estava acostumado a ver no Brasil e comandar uma pista internacional? Existe alguma história de bastidor que tenha te marcado?
Bem, o maior aprendizado musical é que música é música e as pessoas gostam de música, não só de um estilo, de um determinada vertente do funk, ou da eletrônica, ou do MPB, ou gostam de rock. Música é música e tu consegue mover as pessoas através da música, não só de um estilo. Ou seja, eu acho que dentro do meu show a pessoa que não gosta de um determinado estilo vai curtir porque dentro do show faz sentido o contexto, eu consigo fazer a pessoa dançar e vibrar, mesmo que ela, na cabeça dela seja “poxa, eu não gosto tanto dessa estilo”, ou por exemplo, “eu não gosto tanto do hard techno”, mas ela vai no meu show e pela construção do show, pela música, ela vai curtir e é isso.
Quais são os próximos passos da sua trajetória? O público pode esperar novas experimentações que misturem ainda mais essa vivência de estrada com a música eletrônica global?
Bem, os próximos passos... é mais lançamentos. No último ano e meio, em lançamento só no Spotify, eu tive mais de um milhão de streams, e agora é aumentar a constância dos lançamentos e cada vez desenvolver a minha identidade como produtor, não só como DJ. O funk é a música eletrônica, e eu quero cada vez misturar com o arte techno, com o psytrance. Principalmente o psytrance, que desde pequeno, com 12, 11 anos, eu curtia de ouvir. Era o terror lá na casa da mamãe. A minha mãe achava que era um louco escutando o psytrance dentro de casa, e eu também fui muito influenciado pela cena de hard techno, e para alguns festivais que eu fui, me trouxeram essa influência, de misturar o funk com outras vertentes da música eletronica.
Qual foi a influência do seu pai na sua carreira? Você sempre gostou de música? E sempre recebeu apoio da sua família na sua trajetória?
E falando um pouquinho de família, meus pais nunca colocaram nenhum empecilho na minha carreira musical. Claro que sempre pensaram que eu deveria estudar, e tanto é que, agora eu finalizei a faculdade aqui em Portugal, em engenharia informática. Mas eles sempre me apoiaram, porque eles viram como eu era dedicado nisso, mesmo eles tendo uma carreira muito tradicional, eles nunca colocaram uma barreira ou algo que impedisse isso no meu projeto, sempre apoiaram. Meu pai, com certeza, dos meus maiores apoiadores, ele foi meu primeiro booking, ou seja, que cuidava do meu booking, porque eu não conseguia cuidar sozinho, quando eu comecei a tocar aqui eu tinha 16 anos, eu não conseguia fazer isso, e também. Meu pai está sempre me dando alguma ideia de música ou de alguns estilos que eu posso misturar. Por exemplo, de pegar a batida. Meu pai está sempre me mostrando uma música do gosto dele, tipo, “ah, bora fazer, você não acha que dá pra juntar isso aqui? Não dá pra misturar com isso aqui?” Então ele trabalha ativamente comigo, tentando ajudar o meu projeto.
Você pretende voltar a Macapá em breve? Existe algum plano de visita ou a agenda internacional ainda não permite?
Estou esperando a oportunidade surgir de fazer uma mini tourzinha por aí, por São Paulo. Por enquanto estou tentando me solidificar aqui na Europa para depois ir para aí.
Entre todos os lugares onde você já tocou, teve algum que mais te marcou? Por quê?
Tocar no palco principal desse festival “tipo forma” em espanha para milhares de portugueses. Foi aqui em Portugal, tem uma viagem de finalistas, ou seja, do Ensino Médio termina e tem a viagem da La Punta, que é uma viagem que vai mais 12 mil portugueses para a Espanha. E lá na Espanha tem uma festa que são tipo seis dias e eu toquei, costumo ter shows para lá todos os anos para trabalhar, e foi quando o Meno K, no auge da sua carreira, foi no meu show. Eu tava curtindo meu show do lado e subiu no palco pra cantar uma música durante o meu show e me abraçou e ficou curtindo comigo no meu show e foi absurdo, isso foi tipo, deu um gás na minha carreira pra caramba isso.
Seu público é majoritariamente jovem. Como você percebe essa conexão entre essa nova geração e a sua música?
Eu acho que cada vez mais as pessoas querem ir para algum lugar e conseguir se soltar e se expressar. E acho que através de músicas com a batida mais agressiva, elas fazem isso melhor.
Sendo um músico tão jovem e que saiu cedo do Norte do Brasil, como você lida com a saudade daqui? Da comida, da cultura, dos ritmos e de tudo aquilo que fez parte da sua infância?
O que mais sinto falta aqui é principalmente comida e o calor humano. Eu raramente como peixe, porque nada tem o sabor do norte. E, aí não sei explicar, mas somos mais receptivos. Sinto bastante falta.
De Macapá para o mundo
Toda trajetória internacional traz consigo uma pergunta sobre identidade. Entre o Norte, onde cresceu, o Brasil, que continua sendo sua principal fonte de referências, e a Europa, onde hoje desenvolve parte importante de sua carreira, Braga constrói uma identidade musical que não parece interessada em escolher apenas um lugar para chamar de casa. Macapá não é apenas a cidade onde Braga passou a infância. É parte da memória que acompanha sua trajetória. E, para quem cresceu no Amapá, existe uma dimensão particular nessa conquista: ver um artista criado em solo tucuju ocupar espaços tão distantes é também uma maneira de enxergar a própria cultura atravessando fronteiras.
O público de Braga também ajuda a contar essa história: jovem, conectado e acostumado a descobrir músicas por meio das redes sociais, ele acompanha um artista cuja carreira nasceu em um ambiente digital e ganhou dimensões internacionais.
A história de Dj Braga ainda está sendo escrita. E talvez seja isso que a torne tão interessante. É uma pequena prova de que a distância geográfica não foi capaz de limitar a potência criativa que existe no Norte do Brasil. E, entre uma batida e outra, o Amapá também encontra novas formas de chegar ao mundo.

