Mari Saad poderia simplesmente ter anunciado que estava deixando a Mascavo. Ao anunciar o fim do seu ciclo à frente da marca, porém, ela escolheu contar por quê. Durante mais de dez minutos, a empresária falou sobre a marca que ajudou a construir, os problemas que encontrou na operação, a relação com os sócios e o momento em que percebeu que já não conseguia conduzir determinadas decisões da maneira que considerava necessária. No meio do relato, uma frase resume a dimensão da questão:

"Eu decidi encerrar o meu ciclo à frente da Mascavo."

Não era uma saída confortável. E talvez justamente por isso seja uma história interessante para quem está do outro lado do balcão, de uma sala comercial ou de uma mesa de reunião, cuidando de uma empresa que levou anos para construir. A Mascavo nasceu em 2024, após uma trajetória em que Mari transformou sua experiência com beleza em conteúdo e negócios. A marca própria era uma nova etapa. Só que, pouco mais de dois anos depois, ela decidiu sair da operação em meio a uma disputa com os demais sócios.

Segundo Mari, o acordo inicial previa que ela cuidaria de áreas como comunicação, marketing e desenvolvimento dos produtos, enquanto os sócios investidores ficariam responsáveis pela operação. A divisão poderia funcionar. O problema, para ela, apareceu quando começou a perceber que estar à frente da marca não significava mais conseguir enxergar tudo o que acontecia dentro dela.

“Eu deveria conseguir acompanhar cada etapa, entender o que estava acontecendo e ter visibilidade do produto até ele chegar a vocês”, afirmou.

Os dados da operação passaram a ser uma das dificuldades. Mari conta que solicitava informações sobre o negócio e não recebia o que precisava para acompanhar a empresa como sócia majoritária. Até que uma questão de produto colocou essa distância no centro da conversa. Consumidores começaram a reclamar da embalagem da base da Mascavo. Mari afirma que tentou retirar os lotes com problemas do mercado e defendeu a substituição dos produtos que apresentavam defeito.

“Eu queria o recall da base, eu queria tirar a base do mercado. Cada lote que estava com defeito, eu queria avisar publicamente o que aconteceu, trocar o produto de quem comprou.”

A tentativa, segundo ela, esbarrou justamente na estrutura que já vinha causando os outros problemas. Sem conseguir conduzir a situação como pretendia, a empresária decidiu levar a disputa para a Justiça. É uma história que poderia terminar aí, com uma sociedade rompida e uma marca deixada para trás. Mas Mari tomou outra decisão.

Se o problema estava na distância entre seu nome e aquilo que conseguia controlar, o próximo negócio precisaria nascer dessa experiência.

“Daqui em diante, eu não posso mais colocar meu nome e a minha recomendação pessoal sobre uma operação que eu não controlo”, destacou.

Para uma empresária que construiu a própria reputação falando de produtos de beleza, essa relação sempre foi muito concreta. Durante anos, Mari foi a pessoa que aparecia diante da câmera, testava produtos, fazia recomendações e dizia ao público em quais escolhas confiava. Quando passou a ter uma marca própria, essa confiança foi transferida para a empresa.

É aí que a decisão de sair ganha outra dimensão. Não se trata apenas de deixar uma sociedade que não funcionou como ela esperava. Trata-se de reconhecer que existe um ponto em que insistir pode custar mais à empresa e à própria reputação do que admitir que aquela estrutura precisa terminar. Mari decidiu terminar.

E decidiu também não deixar o consumidor para trás. Quem teve problemas com a base, vendida por R$129,90, poderá receber o valor como crédito no próximo projeto de beleza da empresária, previsto para o primeiro semestre de 2027. Se a nova operação não estiver disponível no prazo anunciado, ela afirma que o dinheiro será devolvido.

“Promessa feita com o meu rosto, quem honra sou eu.”

Pode ser a frase que melhor explique a postura que Mari quer levar para a próxima empresa. Não porque uma nova marca possa ser construída sem erros, mas porque, para ela, assumir o próprio nome também significa assumir aquilo que acontece quando alguma coisa dá errado. E essa escolha interessa muito mais ao empresário do que a história da maquiagem em si.

Todo negócio chega a um momento em que o dono precisa decidir o que continua fazendo sozinho, o que pode delegar, quem pode entrar como sócio e quais áreas precisam permanecer sob sua supervisão. Crescer também significa confiar em outras pessoas.

O que a experiência da Mascavo acrescenta a essa equação é uma pergunta simples: o que você precisa continuar enxergando, mesmo quando já não é você quem executa?

Não existe empresa que cresça sem delegação. Mas existe uma diferença entre não fazer e não saber. Você pode não cuidar do estoque, mas precisa saber como ele está. Pode não fechar o financeiro, mas precisa conhecer os números. Pode ter uma equipe cuidando do atendimento, mas precisa saber quando o cliente está reclamando. Pode ter sócios responsáveis pela operação, mas precisa estar claro até onde vai a responsabilidade de cada um e como as decisões importantes são tomadas.

Foi justamente essa clareza que Mari diz ter perdido na Mascavo. Por isso, quando fala sobre o projeto que pretende lançar em 2027, ela não fala primeiro de embalagem, produto ou campanha. Fala de operação.

“Eu vou voltar a fazer o produto com a operação inteira na minha mão, do primeiro ao último passo.”

Após construir uma comunidade, transformar influência em marca, dividir responsabilidades, enfrentar um conflito societário e decidir sair de uma empresa que carregava seu nome, Mari chega ao próximo negócio com uma vantagem que nenhum planejamento consegue oferecer antes de uma experiência real: ela já sabe quais perguntas precisa fazer.

Nem toda decisão empresarial importante aparece como crescimento no faturamento, lançamento de produto ou abertura de uma nova unidade. Algumas aparecem quando é preciso dizer não a uma estrutura que já não funciona. Outras, quando assumir a responsabilidade significa reconhecer um problema antes que ele fique maior.

Mari Saad está fazendo ambas as coisas. Fecha uma empresa para construir outra sob condições que considera mais coerentes com a responsabilidade de colocar seu nome nela. Porque, às vezes, a decisão mais importante sobre o futuro de uma empresa acontece antes mesmo de existir um novo produto: quando o empresário decide, com clareza, o que não abre mais mão de acompanhar.